Não é a primeira vez que me deparo com o
desdém da vida, nem a primeira vez que esparramo meu corpo sobre o chão
de madeira para me deslumbrar com o maravilhoso mundo de debaixo da
cama. O pó revela a história de tudo que está ali: a árvore, que morta,
virou madeira, que por sua vez virou um segmento, que agora é um pedaço
de minha cama. E isso me faz imaginar que daqui alguns anos esta madeira
não estará mais lá e será apenas uma casca envernizada velha, escura,
jogada num canto ou alagada sabe-se lá onde. Tocando com a ponta dos
dedos este novo mundo, eu também sou uma árvore – considerando que todas
as imagens de minha vida estão intactas, ou seja, não mudei nada, nada
mesmo –, com a única diferença de que estou aqui, escrevendo sobre como
encontrar felicidade debaixo da cama.
Daqui
algum tempo não estarei mais correndo pelos cômodos da casa, pulando no
sofá, cantando alguma música dos Doors ou dos Beatles, fazendo gracinhas
para chamar a atenção; muito menos deslizando os dedos num pedaço de
plástico ligado a um amontoado de metal e fios. E isso é uma das coisas
mais lindas do mundo, de um modo ou de outro. Mas nada vai mudar: sei
que minha vã presença se prendeu a este lugar; é uma parte de mim. Então
tento me dividir em pequenas partes simplesmente para colocá-las em
vários caminhos distintos, só para depois ver se restará alguma pequena
lembrança, um vestígio de alegria transformado no conforto de estar
debaixo da cama.
Eu sou uma parte disso.
Posso ser o monstro de debaixo da cama ou o pó que lá se esconde durante
anos, esperando para ser retirado. Ou o caminho que me faz lembrar que
nada disso é real, que é apenas uma simples filosofia de como ser feliz
debaixo da cama. Ou não. Enfim.
É, um texto de anos atrás. E continua sendo verdadeiro. [e muito adolescente! haha]