quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Encontrando a felicidade debaixo da cama - 19/11/2007

Não é a primeira vez que me deparo com o desdém da vida, nem a primeira vez que esparramo meu corpo sobre o chão de madeira para me deslumbrar com o maravilhoso mundo de debaixo da cama. O pó revela a história de tudo que está ali: a árvore, que morta, virou madeira, que por sua vez virou um segmento, que agora é um pedaço de minha cama. E isso me faz imaginar que daqui alguns anos esta madeira não estará mais lá e será apenas uma casca envernizada velha, escura, jogada num canto ou alagada sabe-se lá onde. Tocando com a ponta dos dedos este novo mundo, eu também sou uma árvore – considerando que todas as imagens de minha vida estão intactas, ou seja, não mudei nada, nada mesmo –, com a única diferença de que estou aqui, escrevendo sobre como encontrar felicidade debaixo da cama.

Daqui algum tempo não estarei mais correndo pelos cômodos da casa, pulando no sofá, cantando alguma música dos Doors ou dos Beatles, fazendo gracinhas para chamar a atenção; muito menos deslizando os dedos num pedaço de plástico ligado a um amontoado de metal e fios. E isso é uma das coisas mais lindas do mundo, de um modo ou de outro. Mas nada vai mudar: sei que minha vã presença se prendeu a este lugar; é uma parte de mim. Então tento me dividir em pequenas partes simplesmente para colocá-las em vários caminhos distintos, só para depois ver se restará alguma pequena lembrança, um vestígio de alegria transformado no conforto de estar debaixo da cama.

Eu sou uma parte disso. Posso ser o monstro de debaixo da cama ou o pó que lá se esconde durante anos, esperando para ser retirado. Ou o caminho que me faz lembrar que nada disso é real, que é apenas uma simples filosofia de como ser feliz debaixo da cama. Ou não. Enfim.


É, um texto de anos atrás. E continua sendo verdadeiro. [e muito adolescente! haha]